quarta-feira, 20 de outubro de 2010

João Badalo , Zé de Cazuza e Zelito Nunes

Pinto e Zé de Cazuza

Um dia , o poeta Zé de Cazuza foi procurar Pinto em Monteiro, quando este já quase no fim da vida,estava morando definitivamente lá.
Zé  Iria com o poeta Manoel Filó, fazer uma cantoria em Paulo Afonso e como não conduzia viola foi tomar emprestada a do velho cantador.
Era uma viola novinha que o também violeiro, Adauto Ferreira  tinha fabricado especialmente pra ele.
Travaram o seguinte diálogo:
Zé:
– Pinto, eu vim pedir a tua viola emprestada,  pra fazer uma cantoria em Paulo Afonso, com Manoel Filó.
Pinto:
– Acabei de trocar num pandeiro, se quiser pode levar!
Zé:
– Não tô viçando não, Pinto!
(DO LIVRO PINTO VELHO DO MONTEIRO UM CANTADOR SEM PARELHA)

José Lopes Neto - O Grande " Zé Catota "




      José Lopes Neto,conhecido por Zé Catota , Nasceu a 25 de agosto de 1917 ,na Fazenda Riachão,município de São José do Egito . Começou a cantar aos 17 anos de idade . Era desses cantadores com resposta pronta para tudo . Uma vez , cantando com Pedro Amorim,este improvisou uma sextilha dizendo :


                   Vivo muito bem de vida
                   e tu vives atrasado,
                   possuo fazenda,açude
                   e cana,do outro lado,
                   tu só tens um jeep velho,
                   além de velho quebrado.


                   Zé Catota :
                    
                   Chamar fazenda,sem gado,
                   eu acho melhor que deixe;
                   A sua cana cortada,
                   Talvez não dê nem um feixe;
                   Esse açude de que fala
                   Tem mais dono do que peixe.


                  

Grande Antônio Pereira, conhecido como o poeta da saudade.

Conhecido como o poeta da saudade, Antônio Pereira nasceu a 13 de novembro de 1891, no sítio Jatobá, hoje município de Itapetim, onde viveu até a morte, a 07 de novembro de 1982. Violeiro e poeta popular, ele mal assinava o nome e nunca fez da arte a sua profissão, tendo sobrevivido como modesto agricultor.
Antônio Pereira participava de jornadas de improviso apenas com os amigos e os seus versos sobreviveram ao tempo porque eram repassados verbalmente pelos seus admiradores que os decoravam. Em 1980, com a ajuda de amigos, publicou seu único folheto, “Minhas Saudades”, uma coletânea de sua poesia.

Alguns versos do poeta:



Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai. 


Saudade tem cinco fios
Puxados à eletricidade,
Um na alma, outro no peito,
Um amor, outro amizade,
O derradeiro, a lembrança
Dos dias da mocidade.


Saudade é como a resina,
No amor de quem padece,
O pau que resina muito
Quando não morre adoece.
É como quem tem saudade
Não morre, mas adoece. 


Adão me deu dez saudades
Eu lhe disse: muito bem!
Dê nove, fique com uma
Que todas não lhe convêm.
Mas eu caí na besteira,
Não reparti com ninguém.

Zé Marcolino,Manoel Filó e Antônio Pereira .

Manoel Xudú


  
                      Um cantador de versos fáceis

Manoel Xudu era um abençoado de Deus. Certo dia, em seus desafios, um colega abordou:


Caro Manoel Xudu
tenho santa inspiração...
Xudu pega na deixa e diz:
Sou igualmente a pião
saindo de uma ponteira
que quando bate no chão
chega levanta a poeira
com tanta velocidade
que muda a cor da madeira.

Ele foi uma pessoa humilde, tratável e considerava todo cantador maior do que ele. Numa de suas cantorias, chegaram Zé de Cazuza, o famoso Lourival Batista e Heleno Rafael. Ele, emocionado com tão ilustres presenças, assim rompeu seu primeiro repente: 

Cantar pra Zé de Cazuza
pra Lourival, pra Heleno
é mesmo que matar cobra
com um cacete pequeno
pisar na ponta do rabo
sem se lembrar do veneno.

O cantador de repente tem sempre uma especialidade, uma linha, um estilo, uns em sextilhas; outros em mote, etc. Mas Xudu era especialista em tudo. Certa vez, deram-lhe um mote assim:

QUEM PERDE MÃE TEM RAZÃO
DE CHORAR O QUE PERDEU.

Manoel se concentrou, mirou com os olhos da mente o céu da inspiração, e começou:

Minha mãe que me deu papa
me deu doce, me deu bolo
mãe que me deu consolo
leite fervido e garapa
mamãe me deu um tapa
e depois se arrependeu
beijou aonde bateu
acabou a inchação
QUEM PERDE MÃE TEM RAZÃO
DE CHORAR O QUE PERDEU.

De outra vez, Manoel estava cantando e um camarada, meio bêbado, oferecia-lhe cerveja e insistia: "Olha a cerveja, Manoel ! Toma a cerveja!..." Manoel desembuxou e disse:

Deixe de sua imprudência
deixe eu findar a peleja
como é que eu posso cantar
tocar e tomar cerveja
cachorro é que tem três gostos
que corre, late e fareja. 

(Extraído do livro ZÉ MARCOLINO - VIDA, VERSOS, VIOLA)

Cancão





Poeta popular, mais conhecido por Cancão, nasceu em São José do Egito, a 12/05/1912. Em 1950, deixou de participar de cantorias de viola e dedicou-se apenas à poesia escrita. Sua obra já foi classificada pelos críticos como uma versão popular à poesia de poetas românticos como Castro Alves, Fagundes Varela ou Casimiro de Abreu.
Freqüentou a escola por pouco tempo ("não cheguei ao segundo livro") e foi, também, oficial de Justiça em sua cidade, onde morreu a 05/07/1982. Livros publicados: "Meu Lugarejo”, Gráfico Editora Nunes Ltda, Recife, 1978; "Musa Sertaneja" e "Flores do Pajeú". Folhetos de Cordel de sua autoria: "Fenômeno da Noite", "Mundo das Trevas", "Só Deus é Quem Tem Poder".
Cancão deixou Três Livros publicados:
MEU LUGAREJO - 1978 / MUSA SERTANEJA / FLORES DO PAJEÚ
Folhetos de Cordel de sua autoria:
"Fenômeno da Noite", "Mundo das Trevas", "Só Deus é Quem Tem Poder".
 

Do Livro Poetas Encantadores

Num recinto, onde Xudu deleitava a assistência com uma bonita cantoria, entra um bêbado com um copo de cerveja, o conduz à boca do festejado cantador, e pôe-se a repetir:


- Comiiiiiiiigo ôce beeebe e caaanta, tá me ouvindo?

Impaciente, o parceiro de Xudu adverte-o:

Você abusa demais,
Já estou sem paciência.

E Xudu completou:

Deixe de tanta imprudência,
Deixe eu findar a peleja,
Como é que eu posso cantar,
Tocar e beber cerveja?
Quem tem três gostos é cachorro
Que corre, late e fareja.

Em outra cantoria o poeta Furiba entregou-lhe esta deixa:

Vê-se o pequeno saguim
Pulando de pau em pau

Xudu respondeu:

Admiro o pica-pau
Trepado num pé de angico,
Pulando de galho em galho
Tocô, tocô, tico, tico,
Nem sente dor de cabeça,
Nem quebra a ponta do bico.

Manoel Filó, admirável poeta, descrevendo com Xudu a vida dos pássaros, terminou uma sextilha assim:

Pra tão longe a ave voa,
De volta não erra o ninho.

Xudu, arrematando:

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho de feno,
No meio bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.