domingo, 22 de abril de 2012


Orgulho e Admiração! Os Vates são a voz da Poesia, ninguém melhor que eles pra mostrar a veia poética nascida na nossa terra .. Parabéns Vates e Violas!

O site oficial de Paul McCartney terá um pedaço da cultura nordestina. A PlanMusic, produtora oficial do show de Paul no Brasil, gravou um vídeo com a banda Vates e Violas em comemoração aos 70 anos do ex-Beatle. Em forma de repente, Miguel Marcondes e Luis Homero, gravaram o vídeo no estádio do Arruda, no dia 21 de abril. Das 15h às 19h, Vates e Violas contaram a trajetória do maior nome da música mundial na atualidade.

Um dos maiores cantadores de viola da atualidade "João Paraibano" ,poeta de Afogados da Ingazeira-PE .




HABEAS POETA – DA AUTORIA DE JOÃO PARAIBANO




Doutor, eu sei que eu errei,
Por dois fatos: dama e porre
Por amor se mata e morre
Eu não morri, nem matei
Apenas prejudiquei
Um ambiente de classe
Depois de apanhar na face,
Bati na flor do meu ramo
Me prenderam porque amo,
Quanto mais se odiasse.

Poeta mesmo ofendido
Ainda oferece afeto
Faz pena dormir no teto
Da morada do bandido
Se humilha, faz pedido
Ninguém escuta a voz sua
Sem ver o sol, nem a lua,
Deixando um espaço aceso,
Pra que um poeta preso
Com tanto ladrão na rua?

Sei que não sou marginal,
Mas por ciúmes de alguém
Bebi pra fazer o bem,
Acabei fazendo o mal
Eu tendo casa, quintal,
Portão, cortina e janela
Deixei pra dormir na cela
Com minha cabeça lesa
Só sabe a cruz quanto pesa
Quem tá carregando ela.

Poeta é como passarinho
Que quando está na cadeia
Sua pena fica feia,
Sente saudades do ninho,
Do calor do filhotinho,
Do fruto da imensidade
Se come, deixa a metade
Da ração que o dono bota
Se canta esquece uma nota
Da canção da liberdade.

Doutor, se eu perder meu nome
Não vejo mais que me empreste,
A minha mulher não veste,
A minha filha não come,
A minha fama se some
Para nunca mais voltar
Não querendo lhe comprar,
Pois humildemente lhe peço
Por favor, rasgue o processo
Deixe o poeta cantar!

Grande "Dedé Monteiro"


Biografia do poeta


Dia 13 de setembro,
Ano de quarenta e nove,
já Tabira emancipada,
Barro Branco se comove:
O casal Olívia-Antonio,
Por bênção do matrimônio,
Recebe, com muito amor,
Cheio de esperança e fé,
O poetinha Dedé,
Na “Casinha do Tambor”.



Ano de cinquenta e três,

Acontece a novidade:
Dedé deixa o Barro Branco
E vem morar na cidade.
Dezembro, sessenta e dois,
Finda o primário e, depois,
No fim de sessenta e seis,
Atinge o ponto final}
Do curso ginasial,
Feliz por tudo o que fez!


É nesse tempo, também,

Que faz seus primeiros versos,
Que estão por aí afora,
Extraviados, dispersos...
Versos simples e inocentes,
Que só mostrava aos parentes,
Gente de fora não via...
Mostrava aos de casa, sim,
Porque parente é assim:
Aplaude até porcaria.  [...]



O poeta Dedé Monteiro glosando o mote:

"Quando a dor é dividida
qualquer comprimido cura."

Disse:

Uma doença que humilha

uma mãe - joia sagrada,
é bem melhor suportada
depois que se compartilha.
Esposo, irmãos, filho, filha...
Um no outro se segura
E a morte - dama obscura,
vai atrás de outra guarida.
Quado a dor é dividida
qualquer comprimido cura.

-
SONETO DE REVOLTA

Que culpa tenho de ser diferente?
Amar as artes, por ventura, é crime?
Tudo é mutável , e o irreverente
Não se acostuma com qualquer regime.

Contra a vontade rude e indiferente,
Eu sou amante do sagrado time
Que empresta a alma, sofre, cria e sente,
E se sente nojo do poder que oprime.

Aprendam isso: gente não doma.
Pichem meu nome, rasguem meu diploma...
Aceito tudo com tranqüilidade.

Se acharem pouco, cubram-me de lodo,
Cortem meu riso, me excomunguem todo,
Mas não me toquem na dignidade!

 (Na foto o poeta e apresentador de festivais de cultura -Felisardo Moura,eu-Lara Moura,e o grande Poeta Enoc Ferreira.)


O poeta Enoc Ferreira é de São José dos Cordeiros-PB , Declamador e profundo conhecedor da história do Brasil, é um genial poeta , que eu sou fã .






Pelo visto, daqui pra o fim do ano,
È certeza que água vai faltar,
Pra beber,pra lavar,pra cozinhar,
Só se for de algum poço artesiano,
Nessa água quem for lavar um pano,
Ela corta a espuma do sabão,
Da que encrua caroço de feijão,
Assim mesmo é melhor do que não ter
"SE PASSAR MAIS UM ANO SEM CHOVER
VAI FICAR POUCO BICHO NO SERTÃO."

                                     

Alguns passam por essa vida e nos deixam coisas muito valiosas, as quais se constituem num legado. Porém, esse tesouro deve ser compartilhado, propagado, divulgado. Não pode ser guardado ou muito menos olvidado. O esquecimento a que relegamos personagens da nossa cultura e história é algo doloroso e que nos causa grande prejuízo. Entre tantas personalidades, resolvi hoje lembrar de Emygdio de Miranda – um poeta sensível, talentoso, boêmio e pobre, vencido pelo vício do álcool que o levou quando contava apenas 36 anos.

Waldemar Emygdio de Miranda nasceu na cidade do Recife, em 05 de agosto de 1897. De acordo com o pesquisador Luiz Wilson, seus pais foram o professor Auxêncio da Silva Viana e sua esposa D. Maria dos Passos de Miranda Andrade, que se fixaram em Serra Talhada, abrindo uma escola na sua residência, na Praça Sérgio Magalhães, tendo tal fato acontecido no princípio do século passado até mais ou menos o ano de 1920. Ali viveu Emygdio até os 18 ou 19 anos de idade, conforme nos conta Luiz Wilson.


                         


Não devolvas as cartas comovidas
Por muito tempo entre nós dois trocadas
Pode mesmo guardá-las encondidas
Como lembranças de ilusões passadas

Não devolves as flores perfumadas
Que conservaram as nossas mãos unidas
Não,não devolves as tristes margaridas
Nem as brancas saudades desfolhadas

Não devolves os versos de improviso
Que na areia da praia eu te ofertei
Decantando o primôr do teu sorriso

Não,não devolves nada que eu te dei
Mas devolves,devolves que eu preciso
Daqueles mil reais que eu te emprestei .






"Ode ao Pajeú"

Amplo, enorme, a rolar em giros caprichosos,
Desce o rio, invadindo as roças e as pastagens;
E avoluma-se e cresce em convulsões selvagens,
Sultão, domina a várzea e os montes pedregosos...

Escavando os grotões, mergulhando as ramagens,
Passa ufano, a cantar os seus efeitos gloriosos.
Geme o vale humilhado aos ímpetos raivosos,
Desse rio hibernal de eternas vassalagens...

Herói, de inverno a inverno, audaz assoberbado,
Não respeita a miséria e a dor do desgraçado,
Que o trabalho perdeu... a roça... o próprio pão

E sereno, sem dó da dor que rude espalha,
Vai cantando, a rolar... e entre moitas farfalha
E não chora, porque nasceu sem coração
.


                             
               Nosso amor foi encanto e desencanto
               Foi silêncio em verdade,em labirintos
               Teve a sede da língua dos famintos
               E a levesa da sombra,do espanto
               Transformou em sorriso todo pranto
               Que existia nos olhos do perdão
               Fez transplante e doou o coração
               Por segundos viveu sem ter vivido
               "NOSSO AMOR FOI UM FILME COLORIDO
               QUE QUEIMOU NA PRIMEIRA EXIBIÇÃO."

                           [Luiz Homero,o grande.]

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Patativa do Assaré





Biografia do poeta

Patativa do Assaré era o nome artístico (pseudônimo) de Antônio Gonçalves da Silva. Nasceu em 5 de março de 1909, na cidade de Assaré (estado do Ceará). Foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina.


Vida e obras 
Dedicou sua vida a produção de cultura popular (voltada para o povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino). Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta. Produziu também literatura de cordel, porém nunca se considerou um cordelista.

Sua vida na infância foi marcada por momentos difíceis. Nasceu numa família de agricultores pobres e perdeu a visão de um olho. O pai morreu quando tinha oito anos de idade. A partir deste momento começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família.

Foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade. Muito feliz, passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade.

Ganhou o apelido de Patativa, uma alusão ao pássaro de lindo canto, quando tinha vinte anos de idade. Nesta época, começou a viajar por algumas cidades nordestinas para se apresentou como violeiro. Cantou também diversas vezes na rádio Araripe.

No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias “Inspiração Nordestina”. Com muita criatividade, retratou aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Após este livro, escreveu outros que também fizeram muito sucesso. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras.

Patativa do Assaré faleceu no dia 8 de julho de 2002 em sua cidade natal.



                    Algumas Poesias de Patativa : 


Há dor que mata a pessoa
Sem dó nem piedade.
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Patativa do Assaré



Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.
Patativa do Assaré


Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

(De EU E O SERTÃO - Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)
Patativa do Assaré

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Grande Poeta Zé Da Luz



Zé da Luz, poeta, das terras nordestinas, nasceu em 29 de março de 1904 em Itabaiana, região agreste da Paraíba e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965. Veio ao mundo como Severino de Andrade Silva e recebeu a alcunha de Zé da Luz. Nome de guerra e poesia, nome dado pela terra aos que nascem Josés e, também, aos Severinos, que se não for Biu é seu Zé.

Sua poesia é dita nas feiras, nas porteiras, na beirada das estradas, nas ruas e manguezais. Perdeu-se do seu autor pois em livro não se encontra. Se encontra na boca do povo, de quem tomou emprestado a voz, para dividi-la em forma de rima e verso.

Seus poemas têm a cor do nordeste, o cheiro do nordeste, o sabor do nordeste. Às vezes trágico, às vezes humorado, às vezes safado. Quase sempre telúrico como a luz do sol do agreste





                Uma poesia muito conhecida :


                                           Ai! se sessê!...
                           
Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

sábado, 23 de outubro de 2010

Zé de Cazuza e Manoel Filó , Grandes gênios da poesia!





Numa amizade, que surgiu ainda na infância, os poetas, Manoel Filó e Zé de Cazuza, edificaram uma relação de respeito, confiança e poesia sobrando. Criaram, juntos ou separadamente, grandes obras da poética sertaneja universal. Durante muitos anos, foram amigos inseparáveis. Viajaram muito pelo sertão afora, atrás de cantorias, de novos poetas e com isso, alargando também, seu rol de amizades. Durante uma dessas viagens, vinham com destino ao Recife, e para passar o tempo na viagem, cantavam de improviso, de onde saíram estes dois, de tantos, belos versos no tema Depois da morte do dia.
Vale dizer, que os versos, de ambos, foram decorados por Zé de Cazuza, conhecido também, como O gravador humano, por conta da facilidade que tem em arquivar no juízo aquilo que lhe desperta o interesse.

Zé de Cazuza

Nesta hora o peregrino
Muda a marcha do andar
Baixa um profundo pesar
Na alma do assassino
Na igreja um velho sino
Saúda a Virgem Maria
Uma mãe na moradia
Beija uma filha que preza
Num casebre um velho reza
Depois da morte do dia.

Manoel Filó

Numa cerca de aveloz
Depois do sol amparado
O vaga-lume assustado
Fica testando os faróis
Os pescadores de anzóis
Embocam na água fria
Ficam naquela agonia
Se uma piaba belisca
Termina roubando a isca
Depois da morte do dia.

Alguns motes com glosas e versos do Livro Poetas Encantadores .



Alguns VERSOS DE ZÉ DE CAZUZA (José Nunes Filho)
Poeta, Repentista, Declamador,
autor do livro POETAS ENCANTADORES

A mulher apareceu,
Apaixonei-me por ela,
Fui limpar ao nome dela,
Terminei sujando o meu.

Do teu riso e tuas frases,
Quisera sempre estar perto,
Teu amor foi um oásis,
Que surgiu no meu deserto.

Sobre dia de Finados

Hoje muita gente veio
Os seus mortos visitar,
Vindo apenas a passeio,
Depois volta pra morar.

Sobre o retirante, este improviso:

O pobre do retirante
Viaja sem rumo certo,
Quando já vai fatigado
Acha um juazeiro perto,
Parecendo um guarda-chuva
Que DEUS armou no deserto.

Sobre o oceano:

Na água do oceano,
Passeia alegre a garoupa,
A ventania agitada
Traz a onda dando poupa,
O sargaço vai saindo
O mar vai limpando a roupa.

Sobre a POESIA:

Quando ouço a POESIA
Fico que não me governo,
O poeta sem cantar
Padece um desgosto eterno,
É mesmo que o sabiá
Passar calado o inverno.

Vejamos essa sextilha,

Eu vou convidar BUCÊ,
Uma distinta pessoa,
perdoe do pobre poeta,
Meu repente, minha loa,
Mas seu nome tiro um fino
Numa coisa muita boa.

A pedido de um ouvinte, glosei este mote:
Anos depois batizou-se pelo precursor João:

JESUS foi circuncidado,
Por uma lei soberana,
Onde a profetiza ANA
Falara do seu reinado,
Com o peito alevantado,
Falou também Simeão,
Após a circuncisão,
Inda mais celebrizou-se.
Anos depois batizou-se
pelo precursor João.

Mote:
Diante da providência a ciência é mentirosa. Improvisei:

Vê-se as flores naturais,
perfumando o ambiente,
parecendo indiferente,
doutras artificiais,
umas cheirando demais,
e outras sem ser cheirosas,
quando o homem faz as rosas
fica faltando a essência,
Diante da providência
a ciência é mentirosa.

SONETO: Partida de minha mãe

Quem da terra partiu levando um riso,
Estampado nos lábios por lembrança,
Com certeza levava a esperança
De alcançar o perdão no paraíso.

Diz o filho sentindo o prejuízo,
A chorar pela mãe que fez mudança,
Aspirando de DEUS a confiança,
De abraçá-la no dia de juízo.

Sobre o seu leito quando morta estava,
Sua bela feição me retratava,
A feição duma santa de capela.

Senti nos olhos arrojado pranto,
A minha mãe que me estimava tanto
Só teve um filho pra chorar por ela.

Os dois retratos:

Sabe o que ficou pra mim
De mãe que nunca me esqueço
Um retrato do começo
E o retrato do fim.
Ambos agradam a mim,
Embora os veja sem gosto,
Um mostra rugas no rosto,
O outro tão diferente,
Um parece o sol nascente,
Outro parece o sol posto.

O meu livro poetas encantadores
contém um elenco fora de série
dos maiores cantadores do passado,
e dos atuais, onde citarei alguns versos dele,
Mote dado a Manoel Xudu:

Quanto é grande o poder do Criador. Que fabuloso improviso:
Analise o caju e a castanha,
São os dois pendurados num só cacho,
Bem unidos, um em cima, outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela, extrai o azeite, o sumo, a banha,
Dele, o suco pro vinho e o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do CRIADOR.

Um cantador desafiando PINTO do Monteiro, disse:

Eu admiro o Senhor
Vir dizer a mim que é macho,
Que outro dia um sujeito
Passou-lhe a faca por baixo,
O sangue correu na perna,
Um gato comeu o cacho.

PINTO pegando na deixa, responde:

Disso prevenido me acho
Por um tipo mal e bruto,
Quando vagou a notícia,
Que eu perdia esse produto,
Tua mãe chorou com pena,
Inda hoje anda de luto.

Firmo Batista cantando com PINTO, termina uma sextilha dizendo:

Não sei porque é que PINTO
Só canta aqui nessa esquina.,
Resposta de Pinto:

Aqui é minha oficina,
Onde eu conserto e remendo,
Quando o ferro é grande, eu corto,
Quando é pequeno, eu emendo,
Quando falta ferro, eu compro,
Quando sobra ferro, eu vendo.


PINTO cantando um desafio com Lourival Batista, este termina:

Na cabeça desse PINTO
Eu ainda bato um prego.

PINTO:

Eu ainda te vejo cego,
Sem ter no bolso um vintém,
Pedindo esmola num beco,
Onde não passa ninguém,
Se passar seja outro cego,
Pedindo esmola também.

Biografia de José Nunes Filho (ZÉ DE CAZUZA)

José Nunes Filho , conhecido como Zé de Cazuza, é , sem contestação, a figura maior no universo do Repentismo, no Nordeste .
              Nasceu aos 13 dias do mês de dezembro do ano de 1929 , na Fazenda Boa-Vista , município de Monteiro ,no Estado da Paraíba . Estudou apenas um ano na " ESCOLA RUDIMENTAR MISTA DE BOA VISTA " . Assistiu , com seis anos de idade, pela primeira vez , a uma cantoria realizada por Severino Lourenço Pinto , seu conterrâneo de Monteiro , e Antônio Marinho do Nascimento ,natural de São José do Egito . Continua em suas atividades agropecuaristas, na Fazenda São Francisco , que herdou de seu pai , José Nunes de Souza - Cazuza Nunes - Fazendeiro e Poeta . De estatura mediana , cabeça meio achatada , testa larga , olhos castanhos , ombros um pouco derreados , braços longos , mãos delicadas e nervosas , fala e voz firmes e claras , sorriso simples e espontâneo , passos largos e seguros . Sua aparência física revela o tipo comum do nordestino , com um certo ar de humildade .
                 Mentalmente , é uma pessoa superdotada. Sua inteligência , sua vontade e sua sensibilidade estão acima da média. Tem plena consciência disto. É nobre e digno. Sabe , sem arrogância ,de seu valor e sua importância na cultura de seu povo e de sua região .

               Três Facetas , entre outras , se manifestam nesse homem impressionante : 
    - Memória  fenomenal; acurada capacidade crítica; sensibilidade poética .
     ZÉ DE CAZUZA prestou e ainda presta a cultuara do repentismo, um relevante serviço . Grava na memória privilegiada, faz mais de cinqüenta anos ,centenas senão milhares de poemas , estrofes , versos ,criados ao sabor do improviso nas cantorias e nas reuniões de glosas dos cantadores e poetas nordestinos, produção artística que se teria perdido definitivamente . Hoje , com a tecnologia , tudo se grava e retém. Nas décadas de 40,50,60 no Sertão não se conhecia outro modo de fixar para a posteridade a obra dos repentistas , a não ser a memória dos freqüentadores das festas de poesia . Havia , porém , um gravador perfeito : a cabeça do Poeta e Mestre das Artes Zé de Cazuza , autor do livro Poetas Encantadores . Ele é capaz de recitar sem interrupção , quatro , cinco horas, o que de melhor produziram os cantadores e improvisadores do Ceará , do Rio Grande do Norte , da Paraíba , de Pernambuco , de Alagoas , de Sergipe e da Bahia. Freqüentador de cantorias, ele mesmo,um excelente cantador, amealhou um verdadeiro tesouro de poesia popular que distribui, com generosidade e até com entusiasmo, por onde passa e onde vive. Sua memória é,realmente , um fenômeno .

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Memória viva da poesia popular e cantoria de viola

Zé de Cazuza lança livro com milhares de versos que decorou em mais de 70 anos



O paraibano José Nunes Filho, conhecido como Zé de Cazuza, é fiel depositário da poesia popular e do improviso de viola. Do alto dos seus 80 anos (nasceu em 13 de dezembro de 1929, na fazenda Boa Vista, em Monteiro-PB), ele se mantém com uma capacidade de memória extraordinária e guarda na memória centenas e mais centenas de poemas, causos, canções, pelejas, de alguns dos maiores nomes da história do repente. Parte deste tesouro ele perenizou no livro Poetas encantadores, cuja terceira edição, revista e ampliada, é lançada hoje, a partir das 16h, na Cachaçaria Matulão, no Mercado da Boa Vista. O dom de Zé de Cazuza tem sido aproveitado por muito pesquisadores e historiadores da cantoria de viola. O folclorista Francisco Coutinho Filho, autor do elogiado Violas e repente, lançado em 1953, foi um dos que recorreram a memória de Zé de Cazuza, como escreveu no seu livro: “Desde 23 de março de 1952, venho revolvendo seu riquíssimo arquivo espiritual, onde tenho encontrado preciosos subsídios sócio-históricos para o estudo da poesia folclórica do sertão nordestino”. Zé de Cazuza diz que não se arrepende de ter repassado os versos para Coutinho: “Mas bem que ele poderia ter me dado autoria também no livro, porque mais da metade do que tem ali fui eu que disse a ele”.
Herdeiro de uma tradição de bardos repentistas que remonta aos primeiros grandes nomes do gênero, Zé de Cazuza, cujo pai também era poeta, e em sua casa costumavam ir Lourival Batista e Pinto do Monteiro, dois dos maiores do seu tempo. “Foi ouvindo estes dois que eu comecei a decorar versos. Já fui mais decorador, quando não havia gravador. Agora todo mundo está gravando cantoria. Mas só decoro versos de cantador que merece. Tem muitos deles que têm queixa de mim porque acham que eu não dou valor a eles. Se as pessoas me perguntarem se eles são bons, digo que são boas pessoas, já os versos que fazem... Tem cantador aí que cantou 30 anos em rádio e ninguém lembra um verso dele, se perdeu tudo”, comenta o “Gravador Humano”, seu apelido.
Graças a Zé de Cazuza foram preservados versos de cantadores que ele não chegou a conhecer, que lhe foram ensinados pelos mais velhos ou por alguns que conheceu pouco, como o lendário Antonio Marinho, de São José do Egito. “Quando conheci Antonio Marinho ele já estava bastante doente de tuberculose, não conseguia cantar direito”, lembra Zé de Cazuza, que traz no seu livro versos de marinhos como estes: “O baião muito puxado/Jesus do céu não socorre/vou descansar meu pulmão/ Pinto vai tomar um porre”. Embora tenha convivido com várias gerações de repentistas, não é passadista. Para ele assim como existiram ótimos cantadores no passado, existem ótimos cantadores no presente: “A diferença para o de antigamente é eles eram mais atrasados. Atualmente tem cantadores extraordinários, como Ivanildo Vila Nova, os Nonatos”, diz Zé de Cazuza, que é também poeta e já chegou a ser cantador de viola, mas por pouco tempo: “Ia uma caravana para São Paulo, isto em 1970, eu ia só acompanhar. Iriam seis cantadores, comigo ficava sete. Então tiraram um, e eu fui como cantador. E me sai bem”.




                                                       Deu no Diário de Pernambuco


Após sete décadas convivendo com declamadores, apologistas e repentistas do Sertão nordestino, o paraibano Zé de Cazuza arregaçou as mangas e registrou seu conhecimento em livro. Em quase 400 páginas, Poetas encantadores apresenta o trabalho de 66 poetas. Alguns são famosos, como Pinto do Monteiro, Rogaciano Leite e Lourival Batista, o Louro do Pajeú. Outros são conhecidos somente por quem é do meio. Lançado há três anos e com duas edições esgotadas, o livro chega agora à terceira edição, ampliada e comemorativa dos 80 anos do autor, nascido no município de Prata, no Cariri paraibano. O volume será lançado hoje, às 16h, na Cachaçaria Matulão, que funciona no Mercado da Boa Vista. A entrada é franca. O livro custa R$ 50.
Poetas encantadores foi escrito praticamente a partir das memórias e andanças de Zé de Cazuza com Manuel Filó, Manuel Xudu e Geraldo Amâncio. "Gravei tudo no juízo. Fiz o livro tirando da minha cabeça", garante. O autor não virou as costas para a nova geração. Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, também está representado.
José Nunes Filho, Zé de Cazuza nasceu no sítio Boa Vista, na cidade de Monteiro. Começou a frequentar as cantorias aos cinco anos. Aos seis, já guardava versos na cabeça. Quando se mudou para a zona rural de Prata, foi vizinho de Zé Marcolino, mestre cantado por Luiz Gonzaga. Há cinco anos, foi reconhecido como Mestre das Artes da Paraíba, equivalente ao registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco. Hoje vive no sítio São Francisco, onde trabalha com agricultura e criação de gado. Nas palavras de Jansen Filho, Zé de Cazuza é um "misto de vaqueiro e poeta, alma coberta de sol e poesia". Segundo o folclorista Francisco Coutinho Filho, no livro Violas e repentes, de 1953, ele é "o mais apurado admirador sertanejo da nossa poesia brava".
A veia lírica corre pela família. Seu pai foi o cordelista Cazuza Nunes. De seis filhos, três seguiram carreira artística. Miguel Marcondes e Luís Homero vieram para o Recife e há dez anos fundaram o grupo Vates e Violas; já Felizardo Moura é famoso apresentador de vaquejadas. "As pessoas alertaram que ele estava cedendo material que ele mesmo poderia registrar", diz o Marcondes, sobre a necessidade do registro das memórias do pai em livro. "Ele passou a vida elogiando e recitando grandes cantadores. Um dia, ele percebeu que é um deles".
Zé de Cazuza diz que há uma infinidade de modalidades de cantorias e repentes. Em menos de um minuto, ele lista o desafio, o lirismo, o trocadilho, a irreverente, a narrativa, o mote, o tema e a satírica. E não torce o nariz para a produção urbana, distante dos assuntos clássicos do repertório matuto. "A poesia é boa em todo campo que ela for bem feita. Há os que martelam por muito tempo e não conseguem e os que fazem repentinamente e fica bonito".


Cantoria em Monteiro-PB 06-08-2010

Soneto

Como um sândalo humilde que perfuma,
E o ferro do machado que corta,
Ei de ter a minha alma sempre morta,
Mas não me vingarei de coisa alguma...

Se alguma dia perdida pela bruma,
Resolveres bater em minha porta,
Ao invés da humilhação que desconforta,
Terás um leito sobre um chão de plumas...

Em troca dos desgostos que me destes,
Mais carinho terás do que investes,
Meus beijos serão multiplicados...
Para os que voltam pelo amor Vencido,
A vingança maior dos ofendidos
É saber abraçar os humilhados!!

O grande poeta juntamente com sua família .

O mestre em seus 80 anos,recitando como de costume.

A neta Ágda Moura recitando em um Festival na cidade de Prata-PB, e seu filho Felisardo Moura,apresentando o festival.

O Poeta Zé com seus amigos, Lula Cabral,Zelito Nunes,e Jeneci .

O Poeta,com suas netas gêmeas Lara e Ágda(Filhas de Miguel Marcondes), e sua nora Suzana.


Soneto que o poeta fez a 15 anos atrás dedicado a suas netas .
             
                                      O presente de Suzana
                 

     Sendo ou não em plenilúnio
     preenchendo uma lacuna
     vi chegar o infortúnio
    me trazendo uma fortuna
    Uma mãe não se acostuma
    passar pelas mesmas trilhas
    abraçada a duas filhas
    quem era doida por uma


     Entre cem gemidos meus 
     saindo de um parto gêmeo
     muito obrigado meu Deus
     por tão valioso prêmio

  
     Feliz eu também estou   
     abraçando as duas netas
     o filho é pai ,eu avô
     das filhas dos dois poetas
    

                                                Com um abraço de Zé de Cazuza
                                                          São Francisco , 18 de abril de 1995
.

João Badalo , Zé de Cazuza e Zelito Nunes